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Carta de Agradecimento do Padre Vitor à Paróquia Santana de Carandaí

Carta de Agradecimento do Padre Vitor à Paróquia Santana de Carandaí

O que faz alguém desejar ser padre? O que faz alguém ser outro Cristo em meio a doentes, pobres e condenados? O que faz alguém renunciar a sua própria vontade, para obedecer a dos outros? O que faz alguém viver não para si, mas para Deus e para o próximo? O que faz alguém levar a Palavra, mesmo quando os destinatários não a querem escutar? O que faz alguém doar a vida em prol de uma causa que é mistério? Muitas outras perguntas poderiam ser feitas em relação as motivações do padre e diversas respostas a elas podem também ser ditas, porém não existe outra conclusão se não semelhante as parábolas do Evangelho de Mateus (13, 44-45): um homem que, ao encontrar um tesouro ou uma pérola valiosa, “vai, vende tudo o que possui e compra”. Isto é, o padre é alguém que foi encontrado por Deus e, desse encontro, foi profundamente amado. Um amor que o ilumina de tal forma que não encontra outro sentido na vida a não ser seguir a voz do amado. Encarna no coração e na vida a palavras de Paulo: “tudo por causa do Evangelho, para dele me tornar participante”. (1 Cor 9, 23). Assim, sua missão é amar a Deus acima de todas as coisas no pastoreio aos irmãos e irmãs, nos quais o Senhor também está presente.
A referência é Jesus Cristo, ele é a fonte, o caminho e a meta. Dessa forma, como lembrava o Papa Bento XVI, a alegria do padre consiste em ter Jesus como assunto do falar, tema do pensar e inspiração do viver, e a cruz consiste no martírio das incompreensões, das ridicularizações, do fechamento dos corações e da fraqueza eclesial, com a qual ele próprio contribui. Por amor a Deus, o pastor não deve dizer o que as pessoas querem ouvir, mas o que precisam para sua salvação; o pastor não deseja maquiar o Evangelho e o ensinamento da Igreja para agradar pretensões mesquinhas e egoístas; o pastor, na espiritualidade apaixonante, precisar discernir qual crescimento a comunidade precisa viver, mesmo quando rejeitado; o pastor, nos sacramentos administrados e em toda ação pastoral, deve ver no rosto de cada paroquiano as ovelhas abatidas do Evangelho por não terem pastor e, assim, movendo-se de compaixão, cuidar delas concretamente (Cf. Mt 9, 36); o pastor se preocupa a cada instante se as pessoas estão fazendo um pessoal, verdadeiro e profundo encontro com Jesus Cristo. Esta é a prioridade pastoral por excelência! Não existe outra! Se o padre pensa mais em seus assuntos, em suas comodidades ou em coisas que fogem a esse ideal, ele mata o cristianismo, a Igreja, a fé, Jesus. Assim, o presbítero deve animar e promover uma Igreja que celebre bem cada sacramento, comungue profundamente, reze com amor, confesse integralmente, case-se conscientemente, enxergue os pobres, visite os doentes, console os enlutados, catequise as crianças, valorize os jovens, defenda a vida, pratique a justiça, instaure a paz, sendo uma Igreja em Saída, que “primeireie”, como diz o Papa Francisco, isto é, dê testemunho autêntico do que acredita. Nisso, os pastores devem oferecer base formativa, espiritual, econômica, estrutural e humana para que isso se efetive.
Queridos irmãos e irmãs da Paróquia Sant’Ana, tudo isso é um pouco daquilo que o ministro ordenado deve ser para vocês, mas que eu não consegui sê-lo plenamente. Em minhas várias falhas, visíveis ou invisíveis aos olhos não fui digno do ministério que a Igreja me confiou. Por isso, peço perdão pela palavra errada, pelo mal exemplo e pela iniciativa imprudente. Como tantas vezes preguei, hoje peço um perdão público, confesso minhas limitações, bem como perdoo qualquer ofensa a mim. Porém, se pude manifestar um pouco daquilo que esperam dos pastores da Igreja, não é a mim que devem agradecer, mas Aquele que tudo faz, já que sem Ele “nada” podemos fazer (cf. Jo 15, 5). Mediante as memórias boas, que foram momentos da graça do meu pastoreio aqui, digam, como um refrão, a mesma aclamação que rezamos depois da proclamação das leituras: graças a Deus! Eu, que carrego limites como vocês, não digo nem sequer “Jesus é o Senhor a não ser com a ajuda do Espírito Santo” (1 Cor 12, 3). Assim, inspirados no salmo 115, professemos: “não a nós, ó Senhor, não a nós, ao vosso nome, porém, seja a glória.”
Como já dito na carta que destinei à paróquia, vocês marcaram minha história ao me acolherem seminarista e se despedirem de mim como padre, vivendo comigo as maiores transições de minha vida. Mesmo depois de tantas palavras, falo agora algo que nunca disse publicamente: esta paróquia é extraordinária, guarda uma potencialidade invejável, ontem e hoje é celeiro de santidade e amor. Descobri nos últimos meses que, como Deus pelo povo no deserto (Ex 20, 5), sou um pastor ciumento, pois aprendi a amá-los com meu humano coração de pastor. Vocês me deram muito mais do que eu ofereci a Vocês, mais do que mereço. Vocês me deram acolhida em suas casas, amizades verdadeiras, companhia no ministério, ouvidos para aprender, presença para celebrarmos, alegria e esperança nas tristezas e frustrações, bem como uma côngrua mais do que digna, um teto e sustento físico e espiritual, transporte para pastoreá-los, segurança clínica e previdenciária, e tantos outros benefícios que muitas pessoas desta cidade não contêm. Muito obrigado por tudo!
Com minha nomeação para a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Piranga, não conviverei mais de perto com vocês. Vou, pois a obediência livre, que tanto preguei e prometi, eu preciso agora vivê-la: neste momento, não faço a minha vontade, mas a vontade da Igreja, que é expressão do desejo do céu. Assim, dou um único conselho para continuarem a caminhada: mantenham-se no essencial, gastem tempo com aquilo que, de fato, não passará, já que o céu e a terra passarão, mas as Palavras de Cristo não. (cf. Mt 24, 35). Cuidado para não se sacrificarem com aquilo que secundário, esquecendo-se do fundamental: a nutrição da fé testemunhada no amor. Mas para isso é preciso uma palavra-chave: comunhão. Comunhão em todos os sentidos! Não sejamos católicos somente a partir do que nos agrada, somente quando se fala a nossa linguagem ou o que desejamos ouvir. Não sejamos católicos pela metade! Seremos, verdadeiramente, cristãos quando formos obedientes na liturgia, na pregação, na doutrina, na ética, na oração e na caridade. Seremos iguais a Jesus que não desceu do céu para fazer a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou (cf. Jo 6, 38). Seremos iguais a Maria e José que tiveram que transformar todos os seus planos por causa da intervenção divina. Seremos como os santos que se sacrificaram na renúncia de si mesmos. Seremos autênticos, já que em toda Missa, rezamos: seja feita a tua vontade (cf. Mt 6, 10). E essa vontade hoje é mediada pela Igreja, que é instrumento de Deus na efetivação do Seu reinado. Sem as palavras de comunhão com a Igreja, não temos Eucaristia. Sem matérias concretas de comunhão, não temos batizados e nem ungidos. Sem padres ordenados na comunhão, Deus não perdoa nossos pecados na confissão. Sem unidade não temos Igreja e nem compreenderemos Deus, pois ele é comunhão, para a qual caminhamos.
A comunhão é firmada, especialmente pelos presbíteros da Igreja. Com isso, peço, incessantemente, que Deus ilumine os ministros ordenados que aqui ficam. Que sejam consolados nas tribulações, alegres no pastoreio e impulsionados na missão que Deus os confia. Dom Luciano dizia aos padres recém-ordenados: “não façam o povo sofrer, pois ele já sofre muito na vida cotidiana”. E um dos modos de não fazê-lo sofrer, e de até consolá-lo, é anunciar-lhe a esperança de Cristo. Continuaremos unidos como clero marianense, sendo irmãos servidores. Muito obrigado por tudo!
Por fim, peço a vocês que também rezem por mim, a fim de que minha consciência e meu coração continuem a proclamar meu lema presbiteral: “sei em quem depositei a minha fé” (2 Tm 1, 12); colocando em prática todos os meus propósitos sacerdotais ofertado a Deus nos dia 16 de novembro de 2022, dentre os quais estão ser pobre, obediente, honesto, sensível, flagelado pelos outros e renascido na oração. Que eu viva de amor, para que, no último suspiro, como o Papa Bento XVI, eu diga: Senhor, eu te amo!
Pe. Vitor Nogueira de Campos
1º de janeiro de 2023.

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